
Sem rodeios, Sangue do Meu Sangue não é o filme português do ano. É, simplesmente, o filme do ano. Porque de tempos a tempos, surge insuspeitamente uma obra capaz de transfigurar a realidade que se esconde na luz e, por breves instantes, revelar a verdade por detrás dela. Ao embrenhar-se no seio de uma família dos subúrbios de Lisboa, João Canijo expõe a carne, os ossos, o desejo e o sofrimento adjacentes à vulnerabilidade da condição humana, que é inevitavelmente emocional. A racionalidade é nada mais que um disfarce sob o qual é possível fingir independência de nós mesmos. Porque O Amor, na sua mais derradeira forma, é impiedosamente incondicional e perdidamente absurdo. Seja ele entre mãe e filha, tia e sobrinho, amantes, amigos, namorados. Aqui ele é representado por um elenco explosivo e inesquecível, muitas vezes explorado pela realização fulgurante e meticulosa de Canijo, que atinge a perfeição técnica quando explora em diversas cenas duas linhas narrativas simultaneamente, num mesmo enquadramento ou plano-sequência mas com diálogos cruzados e independentes. Por isso chega a ser doloroso destacar interpretações como as de Anabela Moreira e de Rita Blanco, as matriarcas desencontradas de um núcleo familiar à beira do abismo. Ou falar de cenas tão desconcertantes como a final com Moreira e Nuno Lopes, as de Blanco com o instruído destruidor ou qualquer uma que penetre no quotidiano colectivo. Canijo expõe com inédita visceralidade a natureza trágica d’O Amor. Rege as vidas de todo o ser que se reconhece enquanto humano. Ameaça tudo o que parece ser vital e imprescindível. Mas só ele o é. Animal. Instinto. Cruel.