
A febre do remake está a atingir proporções inacreditáveis. Todos os grandes sucessos internacionais cedo encontram uma produção de Hollywood para recolher os louros do que foi outrora uma ideia original. Por isso foi com alguma surpresa que foi recebida a notícia de que David Fincher, um dos poucos verdadeiros espíritos criativos do cinema ocidental, iria rescrever o capítulo de abertura da afamada trilogia Millennium de Stieg Larsson nem três anos após o lançamento da primeira adaptação sueca. No entanto Fincher parece ter ido exclusivamente à fonte e as divergências entre filmes são muitas e algumas até bastante pertinentes. David Fincher volta à sórdida e sombria visão que tornou Se7en um dos grandes clássicos do cinema contemporâneo e atribui a cada plano densidade e textura cinematográfica como só ele tem capacidade de fazer. A relação entre Blomkvist e Salander sai reforçada e é o grande trunfo desta nova adaptação, com uma química genuína entre Daniel Craig e Rooney Mara. E se Craig, e também o restante elenco, é vastamente superior ao seu antípoda sueco, Mara encontra um desafio maior em ultrapassar a já iconográfica Noomi Rapace. No entanto é interessante ver as divergências de interpretação em ambas, cada uma trazendo cores diferentes mas conspícuas a uma personagem simultaneamente torturada e implacável. Mara tem o dom de a tornar mais vulnerável e permeável à relação que trava com Blomkvist, mostrando uma Lisbeth que vai deixando cair a guarda, mesmo contra a sua vontade mais consciente. A prova de fogo vem a seguir… se The Girl With a Dragon Tattoo não tinha imediata necessidade de uma nova interpretação, os restantes capítulos precisam irrevogávelmente de um realizador que faça justiça a Lisbeth Salander. E esse realizador é certamente, apesar de ser o único elemento ainda por confirmar nas sequelas, David Fincher.
4 stars